Tem gente que demora vinte minutos para escolher um prato no cardápio. Reescreve a mesma mensagem de WhatsApp quatro vezes antes de enviar. Pesquisa modelos de geladeira por uma semana inteira antes de comprar uma que, no fim, é parecida com qualquer outra. E depois de decidir, em vez de alívio, vem aquela sensação esquisita: será que eu deveria ter escolhido a outra opção?
Se isso soa familiar, talvez você reconheça algo que a psicologia chama de perfil maximizador. E não, isso não é sobre ser perfeccionista no sentido que você já ouviu mil vezes. É mais sutil, e mais cansativo, do que isso.
O psicólogo Barry Schwartz descreveu duas formas distintas de tomar decisões. Veja a diferença entre elas:
A primeira vista, parece óbvio que maximizar seria melhor. Afinal, quem não quer a melhor opção? Mas a pesquisa original de Schwartz e colegas, publicada em 2002 no Journal of Personality and Social Psychology, mostrou algo contraintuitivo.
Esse padrão não apareceu uma vez. Foi replicado em estudos posteriores, com diferentes populações e diferentes formas de medir a tendência maximizadora, o que dá um peso real ao achado. Um estudo de 2006 com formandos universitários em busca de emprego descobriu algo ainda mais revelador: os maximizadores conseguiam, em média, salários iniciais mais altos do que os satisficers. Objetivamente, fizeram escolhas melhores. E, ainda assim, relataram menos satisfação com o próprio emprego do que os satisficers.
Isso desfaz uma confusão comum: o problema do perfil maximizador não é fazer escolhas piores. Muitas vezes é o oposto. O problema é que a forma de chegar à escolha, e principalmente a forma de se relacionar com ela depois de feita, consome bem-estar mesmo quando o resultado é bom. Veja como os dois perfis se comparam em diferentes dimensões:
| dimensão | maximizador | satisficer |
|---|---|---|
| satisfação com a vida | tende a ser menor | tende a ser maior |
| resultado objetivo da escolha | frequentemente melhor | frequentemente “bom o suficiente” |
| arrependimento pós-decisão | mais frequente e mais intenso | menos frequente |
| comparação social | mais presente, mais desgastante | menos presente |
| ruminação sobre decisões passadas | mais elevada | mais baixa |
| autoestima | tende a ser menor | tende a ser maior |
Por que isso acontece? Os mesmos estudos apontam dois mecanismos. O primeiro é a comparação social: maximizadores tendem a se comparar mais com os outros depois de decidir, e a serem mais afetados quando essa comparação é desfavorável. O segundo é o pensamento contrafactual, aquele “e se eu tivesse escolhido diferente”, que se aproxima do que a psicologia chama de ruminação. E ruminação, fora do contexto de uma escolha de geladeira, é um dos processos cognitivos mais associados à manutenção de quadros depressivos.
O ciclo costuma se repetir da mesma forma, decisão após decisão:
A ciência sobre o tema evoluiu nos últimos anos. Pesquisas mais recentes, de Cheek e Schwartz, distinguem maximizar como estratégia de maximizar como meta.
Buscar excelência como meta, ter padrões altos, não está necessariamente ligado a sofrimento. O que parece pesar é a estratégia: a busca exaustiva por alternativas, a dificuldade de parar de procurar, a incapacidade de se sentir em paz depois de decidir. Não é ter critério que adoece. É não conseguir se permitir parar de comparar.
Aqui vale uma pausa, porque é fácil ouvir isso e pensar “então eu preciso aprender a relaxar e escolher logo”. Mas não é tão simples assim, e tratar como simples é onde a maioria dos conteúdos sobre esse tema erra. Para muita gente, esse jeito de decidir não nasceu de excesso de exigência consigo. Nasceu de um sistema que aprendeu, em algum momento, que o erro custa caro. Que escolher errado significa decepcionar alguém, perder uma oportunidade que não vai voltar, ou confirmar uma crença antiga de que não se pode confiar no próprio julgamento.
E é por isso que a saída não costuma ser “decida mais rápido” ou “confie mais em você”, como se fosse só uma questão de atitude. A pergunta mais honesta é outra: o que essa busca pela escolha perfeita está tentando evitar?
Do outro lado, os satisficers não saem ilesos de toda generalização. Pesquisas que compararam os dois perfis mostram algo interessante: mesmo quando, objetivamente, tomam decisões que poderiam ser consideradas piores, os satisficers relatam se sentir subjetivamente melhor com essas decisões. Não é que tenham menos critério. É que têm uma relação diferente com a incerteza depois de decidir, uma capacidade maior de fechar a porta da comparação e seguir.
Isso não quer dizer que todo satisficer está automaticamente bem, ou que todo maximizador está automaticamente em sofrimento. São tendências, não diagnósticos. Mas a relação consistente que a pesquisa documenta, entre a tendência maximizadora, a ruminação e os índices mais altos de depressão e menor autoestima, é um dado clínico relevante. Sobretudo para quem se reconhece num padrão de decidir que nunca termina, em que cada escolha feita é imediatamente substituída pela dúvida sobre a escolha que não foi feita.
Se você esse tema ressoa em você, talvez a pergunta que vale a pena carregar não seja “como eu decido mais rápido”, mas “o que eu estou tentando proteger quando insisto em encontrar a opção perfeita”. Essa pergunta, sozinha, já costuma abrir mais espaço do que qualquer técnica de decisão rápida.
Se você se reconheceu em alguma parte deste texto, talvez valha a pena ir um pouco além da leitura. Preparei um pequeno instrumento de autorreflexão, inspirado nos construtos que Barry Schwartz descreveu em sua pesquisa sobre estilos de decisão, para te ajudar a observar com mais clareza onde você se encontra entre maximizar e satisfazer. Não é um teste com resultado certo ou errado, e não substitui avaliação clínica, é apenas um espelho para começar a perceber o próprio padrão. Ao final, você pode baixar um relatório simples com o seu resultado e algumas sugestões práticas, e levar para conversar com sua psicóloga ou psicólogo, caso ache que isso pode enriquecer o trabalho que já está fazendo em terapia.