Você já se sentiu confuso sobre o que estava sentindo, uma mistura de ansiedade com irritação, ou aquela sensação estranha de vazio que não conseguia nomear? Essa dificuldade em identificar emoções é mais comum do que parece e impacta diretamente nossa saúde mental, nossos relacionamentos e até nossas decisões cotidianas.
A boa notícia: existe uma forma visual e acessível de entender melhor o que sentimos. O modelo circumplexo das emoções, desenvolvido pelo psicólogo James Russell, organiza os estados emocionais em um sistema de dois eixos simples e pode transformar sua consciência emocional.
Neste artigo você vai aprender:
- O que é o modelo circumplexo das emoções e como ele funciona
- Como usar os dois eixos para nomear qualquer emoção
- Exemplos práticos do dia a dia
- Exercícios para desenvolver o vocabulário emocional
- Por que identificar emoções é o primeiro passo para o equilíbrio mental
Por que é tão difícil identificar emoções?
Antes de mergulhar no modelo, vale entender: por que tantas pessoas não conseguem nomear suas emoções com clareza? Existem quatro razões principais:
- Vocabulário emocional limitado: crescemos ouvindo apenas “triste”, “feliz” ou “com raiva” — mas existem dezenas de variações entre esses estados.
- Educação emocional restrita: em muitas famílias e escolas, falar sobre sentimentos não era incentivado.
- Confusão entre sensações físicas e emoções: coração acelerado, tensão muscular, aperto no peito — o corpo sinaliza, mas nem sempre conseguimos traduzir.
- Alexitimia: uma dificuldade clínica em identificar e expressar emoções, mais comum do que se imagina.
Se você já se pegou dizendo “não sei o que estou sentindo”, saiba que não está sozinho. Reconhecer emoções é uma habilidade que pode ser aprendida e o modelo circumplexo é uma ferramenta excelente para isso.
O que é o modelo circumplexo das emoções?
O modelo circumplexo das emoções foi criado pelo psicólogo James Russell em 1980 e organiza os estados emocionais em um círculo bidimensional, mostrando como as emoções se relacionam entre si.
Os dois eixos do modelo
1. Valência (agradável ↔ desagradável)
Indica se a emoção tem uma qualidade positiva ou negativa, se o sentimento é percebido como bom ou ruim.
2. Ativação (alta ↔ baixa)
Indica o nível de energia envolvido, se a emoção vem acompanhada de muita energia (como raiva ou euforia) ou pouca (como calma ou tristeza).

Os quatro quadrantes
Quando cruzamos esses dois eixos, surgem quatro grandes zonas emocionais:
| Quadrante | Valência | Ativação | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Alta ativação + agradável | Positiva | Alta | Alegria, entusiasmo, euforia |
| Baixa ativação + agradável | Positiva | Baixa | Calma, contentamento, relaxamento |
| Alta ativação + desagradável | Negativa | Alta | Ansiedade, raiva, estresse |
| Baixa ativação + desagradável | Negativa | Baixa | Tristeza, apatia, desânimo |
Esse mapa emocional nos ajuda a perceber que as emoções não são “caixinhas fechadas”, mas estados que variam continuamente em intensidade e energia.
Como usar o modelo circumplexo para identificar emoções
Imagine que você está se sentindo mal, mas não consegue dizer se é cansaço, frustração ou tristeza. Com o modelo circumplexo, você faz duas perguntas simples:
1. Minha energia está alta ou baixa?
2. Esse sentimento é agradável ou desagradável?
Com essas duas respostas, você já se aproxima muito do que está sentindo.
Exemplos práticos
Situação 1: você está agitado, com pensamentos acelerados e aperto no peito.
Energia: alta | Valência: desagradável
Emoções prováveis: ansiedade, estresse, nervosismo
Situação 2: você se sente pesado, sem vontade de fazer nada.
Energia: baixa | Valência: desagradável
Emoções prováveis: tristeza, apatia, desânimo
Situação 3: você terminou uma tarefa importante e se sente leve e satisfeito.
Energia: moderada/baixa | Valência: agradável
Emoções prováveis: contentamento, alívio, satisfação
Emoções não são boas ou ruins
Um ponto fundamental: não existe emoção certa ou errada. Todas têm função adaptativa.
- Medo → protege de perigos reais ou percebidos
- Raiva → sinaliza que limites foram ultrapassados
- Tristeza → ajuda a processar perdas e mudanças
- Alegria → motiva, fortalece vínculos e reforça comportamentos saudáveis
O problema não está em sentir, mas em ignorar ou reprimir o que sentimos. Reconhecer a emoção é o primeiro passo para regulá-la e expressá-la de forma saudável.
O modelo circumplexo no cotidiano
No trabalho
Você sente irritação constante diante de certas situações. Energia alta + valência negativa = provavelmente raiva ou frustração. Nomeando a emoção, você pode escolher estratégias: respiração, assertividade, conversa direta.
Nos relacionamentos
Você sente uma mistura estranha de carinho e incômodo em relação a alguém. O modelo ajuda a perceber que podemos ter emoções ambivalentes — afeição e desconfiança coexistindo.
No autocuidado
Você chega em casa exausto, sem ânimo. Energia baixa + valência negativa = cansaço, talvez tristeza. Reconhecer isso pode levar a priorizar descanso, em vez de se cobrar por produtividade.
Como desenvolver o vocabulário emocional na prática
1. Diário emocional
Escreva diariamente: o que sinto? Qual a intensidade de 0 a 10? Usando as duas perguntas do modelo (energia e valência), tente nomear a emoção com a maior precisão possível.
2. Expanda seu vocabulário
Em vez de apenas “raiva”, diferencie: irritação, frustração, indignação, ressentimento. Em vez de apenas “tristeza”: melancolia, decepção, solidão, luto.
3. Use o mapa visual
Tenha o círculo do modelo circumplexo impresso ou salvo no celular. Quando sentir algo, localize no mapa.
4. Pratique na comunicação
Em vez de dizer “estou mal”, experimente ser mais específico: “estou ansioso com essa reunião” ou “estou desanimado porque não dormi bem”.
Benefícios de aprender a identificar emoções
Pesquisas em psicologia mostram que desenvolver consciência emocional traz ganhos concretos:
- Melhora a regulação emocional (menos reatividade, mais equilíbrio)
- Fortalece os relacionamentos (mais clareza ao comunicar sentimentos)
- Aumenta a autocompaixão (menos autocrítica, mais cuidado)
- Reduz sintomas de ansiedade e depressão
- Favorece a tomada de decisões mais consciente
Nomear emoções não é só um exercício de autoconhecimento — é o primeiro passo para transformar sua vida emocional.
Identificação das emoções e psicoterapia
Abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia Focada na Compaixão (TFC) utilizam a identificação de emoções como parte central do processo terapêutico. Isso porque não podemos trabalhar o que não reconhecemos. Quando você aprende a nomear “estou ansioso” em vez de simplesmente “estou mal”, abre caminho para intervir de forma muito mais eficaz.
Perguntas frequentes sobre o modelo circumplexo
O que é o modelo circumplexo das emoções?
É um sistema criado pelo psicólogo James Russell (1980) que organiza as emoções em um círculo bidimensional com base em dois eixos: valência (agradável/desagradável) e ativação (alta/baixa energia).
Qual a diferença entre valência e ativação?
Valência indica se a emoção é percebida como positiva ou negativa. Ativação indica o nível de energia envolvido. Juntos, esses dois eixos permitem localizar qualquer emoção no mapa circumplexo.
O modelo circumplexo é usado na psicoterapia?
Sim. É amplamente utilizado em abordagens como TCC e TFC, e em pesquisas sobre regulação emocional, para ajudar as pessoas a identificar e nomear estados afetivos com mais precisão.
Como treinar a identificação emocional no dia a dia?
As estratégias mais eficazes incluem: manter um diário emocional, expandir o vocabulário emocional, usar o mapa visual do modelo circumplexo e praticar comunicação emocional mais precisa.
Conclusão: aprender a nomear é aprender a cuidar
As emoções são como bússolas internas. Quando não conseguimos lê-las, ficamos perdidos. O modelo circumplexo oferece um mapa simples e poderoso para entender onde estamos emocionalmente.
Comece devagar: ao sentir algo, pergunte-se sobre energia e valência. Aos poucos, seu vocabulário e sua clareza emocional crescerão e com eles, sua capacidade de se cuidar.
Lembre-se: todas as emoções têm valor. Ao identificá-las, você dá a si mesmo a chance de viver com mais autenticidade, equilíbrio e bem-estar.
Se você sente dificuldade em lidar com suas emoções ou quer aprofundar essa jornada de autoconhecimento, a psicoterapia pode ser o espaço seguro para isso. Entre em contato e saiba como posso te ajudar.
Com carinho, Paula.