Repare na próxima vez que seu time jogar. Se ganhar, você provavelmente vai dizer “nós ganhamos”. Se perder, é bem mais provável que saia “eles perderam”, ou até “o time jogou mal”. A gramática muda sozinha, sem você decidir isso conscientemente. Isso tem nome na psicologia social, BIRGing (brilhar com a glória refletida do grupo) e CORFing (cortar a ligação com o fracasso do grupo), mas o nome é só a porta de entrada. O que está por trás é bem mais antigo e mais profundo do que futebol.
O jogo como sistema cerebral, não como passatempo
A ideia de que brincar é “coisa de criança” ou “tempo livre sem função” não resiste à neurociência afetiva. Praticamente todos os mamíferos brincam quando filhotes, e espécies com cérebros mais complexos brincam mais e por mais tempo. Isso sugere fortemente que o jogo não é subproduto do desenvolvimento, é parte central dele.
O neurocientista Jaak Panksepp identificou o sistema PLAY como um dos circuitos emocionais primários do cérebro de mamíferos, ao lado de sistemas como busca, medo e cuidado. Filhotes que brincam mais desenvolvem melhor regulação emocional, melhor leitura social e melhor capacidade de resolver conflito sem violência real. O jogo é ensaio de baixo risco para habilidades de alto risco, caçar, fugir, negociar, cooperar, competir, tudo isso é treinado brincando, antes de precisar ser usado a sério.
Prever o ambiente: uma necessidade que vem antes da linguagem
Junto ao impulso de brincar, existe outro ainda mais fundamental, o impulso de prever. Modelos de cognição preditiva descrevem o cérebro como, essencialmente, uma máquina de antecipação. Ele está o tempo todo gerando expectativas sobre o que vai acontecer a seguir e comparando com o que de fato acontece. Isso não é luxo cognitivo, foi vantagem de sobrevivência direta. Prever onde está a presa, prever se aquele galho aguenta o peso, prever a intenção do outro membro do grupo, cada previsão certa era um risco a menos.
Por isso, acertar uma previsão libera dopamina, mesmo quando o conteúdo previsto é trivial, como o resultado de uma partida. A sensação não é sobre o jogo. É a reedição de algo antigo, “eu consegui ler o ambiente corretamente”, que o corpo registra como recompensa, independente do contexto em que isso acontece hoje.
O que a torcida supre que não é sobre o jogo
Se juntarmos essas duas peças, o sistema de jogo e o sistema de previsão, ainda falta a camada social, que é onde a torcida realmente ganha função psicológica, e onde a ciência mais recente tem achados sólidos.
Um estudo de 2023 com quase 7.250 adultos no Reino Unido encontrou que assistir a eventos esportivos ao vivo prediz bem-estar subjetivo e reduz solidão, mesmo depois de controlar fatores como idade, renda e escolaridade. Pesquisas conduzidas ao longo de décadas por Daniel Wann ligam consistentemente a identificação forte com um time a maior autoestima, menor solidão e menor alienação social. Um estudo de 2024 detalhou o mecanismo: assistir esporte leva a mais interação social, que enriquece a experiência emocional e eleva o bem-estar subjetivo, sendo o componente social mais importante que o emocional isolado.
Torcer coletivamente satisfaz, ao mesmo tempo, três necessidades centrais para o bem-estar humano: pertencimento, competência (“entender do assunto”) e regulação emocional compartilhada. Nenhuma delas é sobre o placar. O placar é só o pretexto que organiza o encontro delas.
Onde o jogo de azar entra nessa história, e o que está acontecendo agora no Brasil
A aposta esportiva não cria um mecanismo novo, ela recruta os dois sistemas mais antigos, jogo e previsão, e os aplica a um contexto de recompensa variável.
A neurociência tem um achado consistente desde os anos 2010: o chamado “quase ganhei” (near miss) ativa o circuito de recompensa do cérebro de forma muito parecida com uma vitória real, e essa resposta é ainda mais forte em pessoas com maior gravidade de comportamento de jogo. Não é força de vontade, é um circuito de recompensa hiperativado por um evento desenhado para parecer quase uma vitória.
Esse mecanismo, que evoluiu para manter nossos ancestrais buscando comida em ambientes de recurso escasso, hoje é acionado artificialmente por qualquer sistema que replique a variabilidade da recompensa sem qualquer contexto de sobrevivência real. E o cenário brasileiro atual é um exemplo particularmente intenso disso.
As apostas esportivas foram liberadas no Brasil em 2018 e regulamentadas por lei em 2023. O crescimento desde então foi rápido: o setor já é considerado o quinto maior mercado de apostas online do mundo.
E o design das plataformas não é acidente. Assim como os apps de redes sociais, os aplicativos de apostas são construídos para prender a atenção, com notificações constantes e apostas ao vivo, que mudam de valor em tempo real durante a partida, multiplicando os momentos de previsão e recompensa dentro de um único jogo. Um circuito que evoluiu para operar em ciclos longos de busca por comida hoje é acionado dezenas de vezes em noventa minutos.
A diferença entre jogar de forma saudável e jogar de forma que adoece
Se jogo, previsão e pertencimento são sistemas legítimos e universais, o que separa uma torcida saudável de uma que passa a fazer mal, ou uma aposta ocasional de uma que se torna compulsiva, não é o comportamento em si. É a função que ele está cumprindo na vida da pessoa naquele momento.
Um entre vários espaços de alegria da semana. Presença de escolha real, incluindo a de parar. Contexto social genuíno. Frustração passageira após perder.
Única fonte de regulação emocional disponível. Sensação de compulsão, não de escolha. Isolamento com aparência de conexão. Ciclo de tentar recuperar o prejuízo.
Sinais de que o jogo deixou de ser saudável
Vale nomear com clareza, porque reconhecer cedo é parte do que muda o desfecho:
- Pensamento constante em apostar ou jogar, mesmo fora do momento da partida.
- Necessidade de apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção (tolerância).
- Tentativas repetidas e malsucedidas de reduzir ou parar.
- Mentir ou esconder de pessoas próximas o real envolvimento com apostas.
- Usar o jogo para regular estados emocionais difíceis, como ansiedade, tristeza ou solidão.
- Negligenciar trabalho, estudo, relações ou o próprio cuidado básico por causa do jogo.
- Recorrer a empréstimos ou a outras pessoas para cobrir perdas, ou apostar de novo para tentar recuperar o prejuízo.
Nenhum desses sinais isolado é diagnóstico. Mas quando vários aparecem juntos e de forma persistente, é o cérebro sinalizando que o que começou como sistema de prazer e previsão virou um circuito operando contra a pessoa, não a favor dela.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) tem o maior volume de evidência de eficácia entre os tratamentos psicológicos para jogo problemático, com redução significativa na gravidade, na frequência e na intensidade das apostas, além de ganhos em autoeficácia. A entrevista motivacional, combinada à TCC, também tem suporte de pesquisa.
- Rede pública (SUS): Unidades Básicas de Saúde e CAPS, tratamento gratuito.
- Jogadores Anônimos: grupos de apoio baseados no modelo de 12 passos.
- CVV: apoio emocional gratuito e sigiloso, 24h, pelo telefone 188.
- Plataformas regulamentadas são obrigadas a oferecer autoexclusão e limites de depósito.
Torcer, jogar e até apostar ocasionalmente não são comportamentos estranhos, nem sinal de fraqueza de caráter. São expressões de sistemas que carregamos há muito tempo, o prazer de brincar, a necessidade de prever, o desejo de pertencer.
O que mudou não foi a nossa natureza. Foi o ambiente ao redor dela, hoje desenhado para acionar esses circuitos com uma frequência que nenhum ambiente natural jamais teve.
Entender essa origem não serve para julgar quem torce com intensidade ou aposta no bolão da Copa. Serve para devolver critério: saber reconhecer quando você está exercendo um sistema humano antigo e saudável, e quando esse mesmo sistema precisa de ajuda para voltar a operar a seu favor. E isso tem tratamento com evidência sólida por trás.
Este texto trata de apostas e comportamento compulsivo de forma informativa. Se você se reconheceu em algum dos sinais descritos, considere conversar com um profissional de saúde mental ou buscar um dos canais de apoio mencionados acima.
Com carinho,
Paula.