Psicologia social e convivência
Resposta rápida
O extremismo ameaça menos a sobrevivência da humanidade do que a capacidade que nos permitiu sobreviver: cooperar. A psicologia descreve um caminho em etapas. Ele começa com a necessidade de ser importante e de pertencer, passa por uma narrativa que aponta um inimigo e por um grupo que a confirma, e tem um ponto de virada, a desumanização, que torna aceitável o que antes seria impensável. Conhecer essas etapas ajuda a reconhecê-las e a interromper a escalada.
Eu noto uma troca silenciosa
Eu noto que, em quase toda discussão que sai do trilho, existe um momento em que o outro deixa de ser “alguém que pensa diferente” e vira “esse tipo de gente”. A troca é rápida, quase sempre inconsciente, e quem a faz raramente percebe. Nenhuma frase é dita para marcá-la. Mas, depois dela, ouvir já não é obrigatório, e ferir já não parece tão grave.
Este texto é sobre essa troca e sobre o que acontece quando ela se torna um modo de viver. Falo de extremismo de qualquer orientação, política, religiosa ou identitária, porque o mecanismo psicológico é o mesmo, mesmo quando as bandeiras são opostas.
Ao terminar a leitura, você será capaz de:
- diferenciar convicção forte de extremismo;
- descrever o caminho de necessidade, narrativa e rede que a pesquisa associa à radicalização;
- reconhecer os degraus da desumanização, em você e no ambiente em que vive;
- escolher um passo possível para descer um degrau.
Neste texto
O que é extremismo, e o que não é
Convicção forte não é extremismo. Uma pessoa pode defender suas posições com firmeza, com paixão e até com raiva, e continuar reconhecendo a humanidade de quem pensa diferente. Para este texto, uso uma definição de trabalho: extremismo é um modo de pensar em que um grupo passa a ser tratado como inimigo, o dano contra ele passa a ser justificado e a dúvida passa a ser vista como traição.
A fronteira não está na intensidade da crença. Está no que a crença permite fazer com o outro.
O extremismo ameaça mesmo a humanidade?
Se a pergunta for sobre violência direta, os dados pedem cautela. O Global Terrorism Index 2026 mostra que as mortes por terrorismo caíram 28% em 2025, o menor número desde 2007. Ao mesmo tempo, as mortes em países ocidentais subiram 280%, a partir de uma base baixa, e as investigações envolvendo jovens triplicaram desde 2021.
Fonte: Institute for Economics & Peace, Global Terrorism Index 2026. O relatório alerta que a melhora global pode ser temporária, por causa de conflitos em curso.
Ou seja, a violência extrema é real, concentrada e instável, mas o quadro não é de escalada linear. A ameaça mais difícil de enxergar é outra: a erosão da cooperação. Simon Levin e Elke Weber lembram que enfrentar clima, pandemias e outras ameaças sistêmicas exige uma ação coletiva maior do que a que temos hoje, e que a polarização dentro dos países torna isso mais difícil. Em um estudo com quase 13 mil pessoas em sete países, entre eles o Brasil, a polarização afetiva se associou ao apoio a políticas de controle da COVID-19. Quando o outro lado vira inimigo, até medidas que beneficiariam todos passam a ser avaliadas pelo time de quem as propõe.
Um contraponto honesto
Uma revisão sobre polarização e decisões ambientais conclui que a polarização entre cidadãos pode ser menos grave do que se supõe, e que existem intervenções que parecem funcionar. O extremismo é o ponto final de um continuum, e a maior parte das pessoas não está nele.
Por que as pessoas chegam lá? Necessidade, narrativa e rede
O psicólogo Arie Kruglanski propõe que a radicalização violenta se apoia em três pilares, conhecidos como o modelo dos “3 Ns” (em inglês, need, narrative, network).
Necessidade
O desejo de importar, de ser alguém, de ter um papel. É a chamada busca por significância.
Narrativa
Uma história que mostra como conquistar significância por meio de uma causa e que justifica a violência como meio.
Rede
Pessoas que compartilham a narrativa e a tornam aceitável e acessível.
Adaptado de Kruglanski e colaboradores (2018).
Esse modelo foi testado em diferentes contextos. Em um estudo com 1.496 pessoas que cometeram crimes de motivação ideológica nos Estados Unidos, perdas de significância, econômicas e sociais, previram o uso de violência, e ter amigos radicalizados (mas não familiares) aumentava a probabilidade. Repare no que isso sugere: antes da ideologia, costuma haver uma ferida de valor. A narrativa extrema oferece uma resposta pronta, um lugar e um nome.
E a solidão?
Aparece com frequência nos relatos de ex-extremistas: em um levantamento da RAND de 2021, metade das pessoas ouvidas disse que sentimentos de marginalização contribuíram para a radicalização, e a maioria citou isolamento e solidão. Mas esse é um dado descritivo, retrospectivo e citado por veículos de imprensa. A pesquisa sobre solidão e radicalização é um campo emergente, e as relações causais ainda não estão claras. Eu trataria a solidão como um possível fator de vulnerabilidade, não como causa.
O ponto de virada: a desumanização
Entre a discordância e a violência existe uma passagem decisiva, e ela é a desumanização. O psicólogo Nour Kteily mostrou, em vários estudos, que a desumanização explícita, ou seja, ver outro grupo como menos humano, prediz apoio a ações como tortura e violência retaliatória, acima do que o preconceito sozinho explicaria. Ela também aumenta logo depois de episódios reais de violência entre grupos.
Há um dado que desmonta a ideia de que isso é coisa de “um lado só”. Em um estudo durante a guerra de Gaza em 2014, israelenses e palestinos expressaram níveis extremos e comparáveis de desumanização do outro lado, e em ambos os grupos ela se associou a hostilidade. Quem é alvo da violência também pode desumanizar.
O efeito espelho
Existe ainda um efeito de reciprocidade, chamado meta-desumanização: quando as pessoas descobrem que o outro grupo as desumaniza, tendem a desumanizar de volta. Em experimentos, esse movimento passou por duas portas: o desejo de retribuir e a sensação de ameaça à identidade. Cada lado se sente justificado pelo que o outro faz, e a escalada se alimenta sozinha.
Esquema didático do efeito espelho descrito por Kteily e colaboradores.
A escada da desumanização
Desumanizar raramente acontece de uma vez. Costuma ser uma sequência de pequenos passos, cada um parecendo razoável a partir do anterior. Montei uma escada de sete degraus para tornar isso visível.
Sobre esta ferramenta
A escada é um mapa didático criado para este texto, inspirado no que a pesquisa descreve sobre desumanização. Não é uma escala validada, não mede risco de radicalização e não é um diagnóstico. As respostas ficam apenas nesta página, no seu navegador.
Em que degrau eu reconheço frases?
Leia as frases de cada degrau e marque as que você reconhece, em você ou no ambiente em que vive. Os grupos que aparecem nas frases são propositalmente genéricos: pense em qualquer grupo.
Onde eu mais ouço essas frases? (opcional)
Pausa para refletir
Pense em um grupo sobre o qual você já usou uma generalização. Você conhece, pelo nome, uma pessoa desse grupo? O que mudaria na frase se você a tivesse em mente?
A leitura da CFT: ameaça sem segurança
Lente clínica (leitura da autora, não achado de pesquisa)
Na Terapia Focada na Compaixão (CFT), de Paul Gilbert, a escada pode ser lida como um sistema de ameaça que sobe de volume sem encontrar nenhum sinal de segurança. Na ameaça, o cérebro simplifica: aliados e inimigos, certo e errado. A complexidade do outro é cara demais para quem está em alerta.
Isso conversa com o que escrevi sobre a indiferença ao sofrimento dos outros, em que o medo de ser compassivo e a lógica de grupo freiam o cuidado. E há uma nuance entre abordagens. Na TCC tradicional, o caminho costuma ser identificar e reestruturar a crença (“eles são todos assim”). A CFT acrescenta uma pergunta anterior: esse sistema se sente seguro o bastante para sustentar uma crença mais complexa?
Desafiar a crença à força tende a confirmar a ameaça, como vimos em Como as pessoas formam opiniões. As duas leituras se completam, mas a ordem importa: primeiro segurança, depois revisão.
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O que ajuda a descer a escada
Não existe receita comprovada para uma pessoa comum. O que posso oferecer são caminhos coerentes com a pesquisa, apresentados como hipóteses práticas.
- Meta-humanizar. É o inverso do efeito espelho. Em experimentos, contrastar a informação de que o outro lado nos desumaniza com a de que nos humaniza mudou o quanto as pessoas desumanizavam de volta. Mostrar humanidade, e perceber a humanidade que nos é mostrada, importa.
- Oferecer outros caminhos para a significância. Se a necessidade de importar é o motor, a pergunta útil é onde mais essa pessoa, ou eu, pode encontrar valor e pertencimento sem precisar de um inimigo.
- Trocar a categoria pelo rosto. Quando a frase é “essa gente”, vale perguntar por uma pessoa específica: quem eu conheço desse grupo, e o que sei dela?
- Notar o corpo. Calor, pressa e aperto durante uma discussão são sinais de ameaça. Respirar antes de responder não resolve o conflito, mas devolve a escolha.
O que ainda não sabemos
- A maior parte dos estudos citados é correlacional, e muitos vêm de países de língua inglesa.
- O modelo da busca por significância é muito citado, mas nem todos os caminhos de radicalização passam por ele.
- O elo entre solidão e extremismo é uma hipótese em construção.
- A escada deste texto é uma ferramenta de reflexão, não um instrumento de avaliação de risco.
Se você está preocupada ou preocupado com alguém próximo que está se radicalizando, procure um profissional de saúde mental ou serviços especializados. Se houver risco de dano a alguém, procure os serviços de emergência da sua região.
Em 30 segundos
O essencial deste texto
- Convicção forte não é extremismo. A diferença está no que a crença permite fazer com o outro.
- Os dados mostram queda global das mortes por terrorismo, mas a ameaça mais difícil de ver é a erosão da cooperação.
- A radicalização violenta costuma combinar necessidade de significância, narrativa e rede.
- A desumanização é o ponto de virada, ocorre dos dois lados e se alimenta do efeito espelho.
- Cada degrau da escada tem uma saída, e ela costuma começar por segurança, rosto e pertencimento.
Perguntas frequentes
O extremismo é uma ameaça à humanidade?
Em termos de mortes por terrorismo, os dados recentes mostram queda global, com aumento no Ocidente a partir de uma base baixa. A ameaça mais difícil de ver é a erosão da cooperação, porque polarização e desumanização dificultam a ação coletiva diante de problemas compartilhados.
O que leva alguém a se radicalizar?
Segundo a teoria da busca por significância, uma combinação de necessidade de ser importante, uma narrativa que justifica violência e uma rede social que a torna aceitável. Nem todo caminho passa por esse modelo.
O que é desumanização?
É perceber outro grupo como menos humano. A pesquisa mostra que a desumanização explícita prediz apoio a ações agressivas, acima do preconceito, e que ela ocorre dos dois lados em conflitos.
Existe extremismo em todas as orientações?
Sim. O mecanismo psicológico, que envolve tratar um grupo como inimigo, justificar o dano e ver a dúvida como traição, pode aparecer em causas políticas, religiosas e identitárias de qualquer orientação.
Como conversar com alguém que está se radicalizando?
Não há receita comprovada. Em geral, ajuda manter o vínculo, perguntar mais do que corrigir, tratar a pessoa como pessoa e buscar apoio profissional se houver risco para ela ou para outros.
- Institute for Economics & Peace (2026). Global Terrorism Index 2026: Measuring the impact of terrorism. Sydney.
- Kruglanski, A. W., Jasko, K., Webber, D., Chernikova, M., & Molinario, E. (2018). The making of violent extremists. Review of General Psychology, 22(1), 107-120.
- Kruglanski, A. W., Gelfand, M. J., Bélanger, J. J., Sheveland, A., Hetiarachchi, M., & Gunaratna, R. (2014). The psychology of radicalization and deradicalization: How significance quest impacts violent extremism. Political Psychology, 35(S1), 69-93.
- Jasko, K., LaFree, G., & Kruglanski, A. (2017). Quest for significance and violent extremism: The case of domestic radicalization. Political Psychology. doi:10.1111/pops.12376
- Kteily, N., Bruneau, E., Waytz, A., & Cotterill, S. (2015). The ascent of man: Theoretical and empirical evidence for blatant dehumanization. Journal of Personality and Social Psychology.
- Kteily, N., Hodson, G., & Bruneau, E. (2016). They see us as less than human: Metadehumanization predicts intergroup conflict via reciprocal dehumanization. Journal of Personality and Social Psychology.
- Bruneau, E., & Kteily, N. (2017). The enemy as animal: Symmetric dehumanization during asymmetric warfare. PLoS ONE, 12(7), e0181422.
- Levin, S., & Weber, E. (2024). Polarization and the psychology of collectives. Perspectives on Psychological Science, 19(2), 335-343.
- Judge, M., Kashima, Y., Steg, L., e colaboradores. Revisão sobre polarização e tomada de decisão ambiental. Annual Review of Environment and Resources.
- Estudo multinacional (n = 12.955) sobre polarização afetiva e apoio a políticas de COVID-19 em Brasil, Israel, Itália, Coreia do Sul, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos.
- Gadarian, S. (2023). Comentário sobre solidão e extremismo, com dados da RAND (2021) sobre ex-extremistas. Syracuse University, Maxwell School.
Para levar com você
Cada degrau tem uma saída
Ninguém acorda extremista. Quase sempre existe um percurso feito de degraus pequenos, e cada degrau tem uma saída. Perceber em que ponto da escada estamos, e em que ponto está o ambiente em que vivemos, é um primeiro cuidado.
“Quando foi a última vez que eu levei, para uma conversa com alguém do ‘outro lado’, um rosto em vez de uma categoria?”
Se este tema ressoa e você sente que precisa de apoio para atravessá-lo, a psicoterapia pode ser um espaço seguro para isso.
Conversar sobre a terapiaEste conteúdo é educativo e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico.
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