Pessoas com altas habilidades/superdotação fazem camuflagem? Há evidência de que crianças e adolescentes superdotados escondem a habilidade para serem aceitos pelos pares. Em adultos com dupla excepcionalidade (altas habilidades e autismo), a camuflagem se parece com a de pessoas autistas. Para altas habilidades sem autismo, a evidência direta ainda é escassa.
Ao final deste texto, você vai conseguir:
- Distinguir os três fenômenos que a palavra “camuflagem” costuma misturar.
- Dizer o que a pesquisa sustenta, e o que ainda é hipótese, sobre camuflagem e altas habilidades.
- Ler com mais critério uma afirmação sobre o tema, perguntando quem foi estudado e como foi medido.
Neste texto
Nos últimos anos, a palavra “camuflagem” (ou “masking”, em inglês) virou assunto frequente quando se fala de altas habilidades/superdotação (AH/SD). Muita gente se reconhece na ideia de esconder partes de si para ser aceita. Mas, quando vamos à literatura científica, descobrimos que a mesma palavra descreve fenômenos diferentes, e que a evidência direta sobre AH/SD é bem menor do que o debate nas redes sugere.
Neste texto, organizo o que a pesquisa realmente mostra, para que a gente consiga falar do tema com precisão e sem prometer mais do que os dados sustentam.
Uma palavra, três fenômenos
Definições rápidas. Camuflagem (ou masking) é o conjunto de estratégias, conscientes ou não, usadas para esconder ou compensar características pessoais em situações sociais; na pesquisa sobre autismo, refere-se a mascarar ou compensar traços autísticos. Altas habilidades/superdotação (AH/SD) designa desempenho ou potencial muito acima da média em uma ou mais áreas. Dupla excepcionalidade (2e) é a coexistência de altas habilidades com outra condição, como autismo, TDAH ou dificuldade de aprendizagem.
Este é o mapa que vamos percorrer. Cada um dos três fenômenos aparece depois com uma etiqueta, para você sempre saber de qual deles estamos falando:
| Fenômeno | O que significa | Quem foi mais estudado | Como foi medido | Força da evidência |
|---|---|---|---|---|
| 1. Esconder a habilidade | Ocultar ou negar a superdotação para ser aceito pelos pares | Crianças e adolescentes superdotados | Social Coping Questionnaire e entrevistas | ●●●○○Consistente, mas sobretudo autorrelato em contexto escolar |
| 2. Camuflar traços autísticos | Mascarar ou compensar traços autísticos em interações sociais | Pessoas autistas, com poucos estudos em AH/SD | CAT-Q e medidas de discrepância | ●●●●○Ampla, com resultados inconsistentes sobre o papel do QI |
| 3. Efeito de mascaramento na 2e | Uma condição esconde a outra na hora da identificação | Estudantes com dupla excepcionalidade | Revisões sobre métodos de identificação | ●●○○○Muito citado, pouco testado |
Os pontos são uma classificação aproximada feita neste texto, a partir do que encontrei na revisão. Não é uma escala validada.
Pausa para refletir
Antes de seguir, pense em uma situação em que você escondeu ou minimizou algo que sabe ou faz bem.
- O que você temia que acontecesse se aparecesse por inteiro?
- Era sobre a sua habilidade, sobre o seu jeito de funcionar (por exemplo, sensibilidade sensorial ou necessidade de previsibilidade), ou sobre os dois?
Isto é um exercício de observação, não um instrumento de diagnóstico. Se o tema mexer com você, vale conversar com um profissional.
Crianças com altas habilidades escondem a habilidade? O estigma da superdotação
Fenômeno 1
Resposta curta: sim. Em estudos com estudantes de vários países, crianças e adolescentes superdotados relataram esconder ou minimizar a habilidade para evitar rejeição, inveja e pressão, mas os dados vêm sobretudo de autorrelato em contexto escolar.
Desde os anos 1980, Laurence Coleman e Tracy Cross propõem que a superdotação pode funcionar como uma condição estigmatizante. Ser diferente da maioria atrapalha a aceitação social, e, por isso, crianças e adolescentes lançam mão de estratégias de coping social para administrar a própria identidade. Entre elas estão negar a superdotação, manter baixa visibilidade ou, no extremo oposto, assumir o papel estereotipado de “o inteligente”. A camuflagem, nesse modelo, é uma estratégia relativamente passiva: misturar-se aos colegas de habilidade média.
O que os dados mostram:
- Em um estudo clássico com 1.465 adolescentes, os estudantes usaram diferentes estratégias conforme a situação, e a estratégia de “apaziguar” (placate) foi a mais frequente nos cenários escolares.
- O Social Coping Questionnaire (SCQ), criado para medir essas estratégias, identificou fatores como negação da superdotação, ênfase na popularidade, busca de aceitação pelos pares e ocultação da habilidade. Em uma amostra de 600 estudantes, a estrutura do instrumento variou por idade e gênero, o que pede cautela ao interpretar os escores.
- Em um estudo transcultural com entrevistas a 90 estudantes de cinco países (Estados Unidos, Reino Unido, Coreia do Sul, Irlanda e França), todos relataram consciência da visibilidade de sua habilidade, pressão por desempenho e experiências de inveja ou rejeição de colegas. Em todos os países houve tentativa de esconder a habilidade ou de se conformar ao comportamento dos pares.
- Em um estudo tcheco, cerca de um terço dos alunos superdotados disse ter alguma tendência a negar a própria superdotação, e as meninas negaram mais que os meninos.
Aqui, camuflar é uma resposta ao contexto social, e a motivação é bem identificável: evitar rejeição, inveja ou o peso de expectativas. Vale lembrar que esses dados vêm de crianças e adolescentes em escolas, principalmente de países de língua inglesa, e quase todos são de autorrelato. Não encontrei estudos longitudinais recentes que acompanhem esse processo na vida adulta.
Uma lente clínica (leitura da autora, não achado de pesquisa)
Na Terapia Focada na Compaixão, de Paul Gilbert, esconder-se para pertencer pode ser entendido como uma estratégia do sistema de ameaça, que busca segurança diante do risco de rejeição. Quando a estratégia funciona, ela protege. O custo aparece quando ela se torna o único jeito de estar com os outros.
Uma pergunta que cabe aqui: o que essa estratégia protegeu em você, e o que ela custa hoje?
O que é camuflagem no autismo e a inteligência ajuda a camuflar?
Fenômeno 2
Resposta curta: camuflagem no autismo é mascarar ou compensar traços autísticos em contextos sociais. A relação com o QI é inconsistente nos estudos: funções executivas e QI verbal aparecem como possíveis fatores, sem consenso.
A pesquisa sobre camuflagem no autismo é muito mais extensa. Ela define camuflagem como mascarar ou compensar características autísticas em interações sociais, e inclui estratégias como imitar gestos e expressões, ensaiar falas e suprimir comportamentos autorregulatórios. Pessoas autistas costumam descrever esse esforço como exaustivo, associado a menor bem-estar e a burnout, embora também o vejam como útil para conseguir interações sociais satisfatórias.
Uma pergunta natural é se ter inteligência elevada facilita camuflar. A resposta, por ora, é: não está claro.
- Em um estudo com 60 adultos autistas sem deficiência intelectual, a camuflagem não se correlacionou com QI nem com idade. As mulheres camuflavam mais, com diferença grande entre os grupos.
- Em adolescentes autistas, menos dificuldades de função executiva previram mais camuflagem, enquanto QI e teoria da mente não foram preditores significativos.
- Um trabalho com adolescentes encontrou que o QI verbal predizia a camuflagem medida por discrepância e a relatada pelos pais, mas não a autorrelatada. Isso sugere que a inteligência pode ajudar a camuflar com sucesso, mais do que a motivar a tentativa.
- As revisões sistemáticas concluem que as associações com função executiva, QI e teoria da mente são inconsistentes, e que a camuflagem se relaciona a traços autísticos, ao gênero feminino e a piores desfechos de saúde mental.
Outro ponto importante: camuflar não é exclusivo do autismo. Adultos com TDAH também camuflam mais que adultos sem o diagnóstico, ainda que menos que adultos autistas. E, entre adultos não autistas, ter menos habilidades sociais e mais traços autísticos se associa a mais camuflagem. Por fim, os métodos de medir camuflagem são variados e de validade incerta, e o principal questionário (o CAT-Q) foi desenvolvido a partir da experiência de adultos autistas, então pode não captar estratégias de outros perfis.
Pessoas com altas habilidades fazem masking? O estudo sobre dupla excepcionalidade
Pontes entre os fenômenos 1 e 2
Resposta curta: em um estudo espanhol de 2026, adultos com altas habilidades e autismo camuflaram de forma parecida à de adultos autistas, enquanto adultos só com alta capacidade intelectual camuflaram menos. É um achado preliminar, com amostra pequena.
O estudo mais direto sobre o tema que encontrei é de 2026, feito na Espanha. Os pesquisadores compararam adultos com dupla excepcionalidade (altas habilidades e autismo), adultos autistas e adultos com alta capacidade intelectual isolada, usando o CAT-Q, que avalia compensação, mascaramento e assimilação.
O padrão de camuflagem dos adultos 2e se assemelhou ao dos autistas, principalmente em mascaramento e assimilação, e se afastou do perfil de alta capacidade intelectual isolada. Em outras palavras, o que parece explicar a camuflagem nesse estudo é o traço autístico, não a alta habilidade. Mulheres e pessoas não binárias relataram mais camuflagem que homens, em linha com a literatura geral.
Esse resultado merece atenção, mas com cautela. O grupo de alta capacidade isolada teve apenas 33 pessoas, os participantes foram recrutados em redes sociais e comunidades online e o desenho é transversal. O estudo não permite concluir que pessoas com AH/SD sem autismo não camuflam. Mostra que, medida por um instrumento criado para traços autísticos, a camuflagem foi menor nesse grupo.
O que é o efeito de mascaramento na dupla excepcionalidade?
Fenômeno 3
Resposta curta: é a hipótese de que a superdotação e outra condição se escondem mutuamente, atrasando a identificação de uma ou de ambas. É muito citada, mas poucos estudos testam como lidar com ela.
Há décadas se supõe que, na dupla excepcionalidade, uma condição pode esconder a outra: a habilidade compensa dificuldades, ou as dificuldades escondem a habilidade. Já em 2006, Burger-Veltmeijer levantava essa hipótese para a combinação entre superdotação e autismo, apontando risco de diagnósticos errados ou perdidos.
O problema é que a ideia é muito citada e pouco testada. Uma revisão sistemática recente sobre identificação de estudantes 2e mostrou que 60% dos estudos discutiam o efeito de mascaramento, mas apenas 7% descreviam como seus procedimentos de identificação lidavam com ele. Outras revisões concluem que não há critério único confiável e que a identificação costuma depender de testes de inteligência e de avaliações formais, enquanto o uso combinado de métodos formais e informais ainda é minoria.
O que ainda não sabemos
- Não encontrei estudo que meça a camuflagem em pessoas com AH/SD sem autismo usando um instrumento pensado para esse grupo.
- Quase não há dados sobre os custos psicológicos da camuflagem em AH/SD. Os dados de exaustão e burnout vêm de amostras autistas.
- Não localizei estudos empíricos brasileiros sobre camuflagem em AH/SD. A produção nacional que apareceu nas buscas trata de habilidades sociais e inclusão escolar. Minha busca não foi exaustiva em bases como SciELO, BDTD e Pepsic, então vale aprofundar.
- Os achados sobre gênero são consistentes em direção, mas vêm de amostras pequenas e de conveniência.
Para ler qualquer estudo (ou post) sobre o tema
Três perguntas ajudam a não generalizar além do que os dados permitem:
- Quem foi estudado? Crianças, adolescentes ou adultos? Pessoas com AH/SD, autistas ou ambos?
- Como foi medido? Com um instrumento feito para esse grupo ou emprestado de outro?
- Que desenho foi usado? Um retrato de um momento ou um acompanhamento ao longo do tempo?
O que isso muda na prática
Para quem se reconheceu no texto
- Reconhecer-se em uma descrição não equivale a um diagnóstico, nem de AH/SD, nem de autismo, nem de TDAH.
- Observe o contexto e o motivo: em quais ambientes você se camufla, e do que se protege em cada um.
- Se a camuflagem pesa no seu dia a dia, uma avaliação com profissional que conheça esses perfis pode ajudar a entender o que está em jogo.
Para quem trabalha com avaliação e psicoterapia
São ponderações a partir dos dados, não conclusões da pesquisa:
- Perguntar do que a pessoa se protege ao se camuflar. Evitar rejeição por ser “inteligente demais” não é a mesma coisa que suprimir traços autísticos ou de TDAH, e as intervenções podem ser diferentes.
- Não inferir autismo, TDAH ou AH/SD apenas pela presença de camuflagem. Camuflar aparece em vários perfis.
- Em avaliações de possível dupla excepcionalidade, evitar depender de um único escore. A literatura aponta para múltiplos critérios e para olhar funcionamento adaptativo, além do QI.
- Tratar o custo da camuflagem como questão clínica real, sem extrapolar para AH/SD dados que, por enquanto, vêm sobretudo de pessoas autistas.
Para levar
O que guardar deste texto
- Camuflagem não é uma coisa só: esconder a habilidade, camuflar traços autísticos e o mascaramento na identificação são fenômenos diferentes.
- Em crianças e adolescentes com AH/SD, esconder a habilidade para pertencer está bem documentado.
- Em adultos, a camuflagem parece acompanhar o traço autístico, mas o dado ainda é preliminar.
- Falar com honestidade sobre onde a evidência termina também é uma forma de cuidar de quem nos lê.
Checagem rápida
Tentar responder antes de ver a resposta ajuda a fixar o que você leu. Clique em cada pergunta para conferir.
1. Um adolescente superdotado finge não saber uma resposta para não ser excluído do grupo. De qual dos três fenômenos estamos falando?
Do fenômeno 1, esconder a habilidade. É a tradição de pesquisa sobre o estigma da superdotação, que descreve estratégias como negar a superdotação ou manter baixa visibilidade.
2. O que o CAT-Q mede, e por que isso importa ao falar de altas habilidades?
Mede camuflagem de traços autísticos (compensação, mascaramento e assimilação). Foi desenvolvido a partir da experiência de adultos autistas, então não captura necessariamente a camuflagem da própria habilidade.
3. Verdadeiro ou falso: há evidência sólida de que camuflar causa burnout em pessoas com altas habilidades sem autismo.
Falso. Os dados de exaustão e burnout vêm de amostras autistas. Para AH/SD sem autismo, quase não há dados sobre esse custo.
4. Por que o efeito de mascaramento na dupla excepcionalidade é descrito como “muito citado, pouco testado”?
Porque, em uma revisão sistemática, 60% dos estudos discutiam o efeito, mas só 7% descreviam como seus procedimentos de identificação lidavam com ele.
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Perguntas frequentes
O que é camuflagem social (masking)?
É o conjunto de estratégias, conscientes ou não, para esconder ou compensar características pessoais em situações sociais. Na pesquisa sobre autismo, significa mascarar ou compensar traços autísticos para se adequar às expectativas dos outros.
Pessoas com altas habilidades fazem masking?
Há evidência de que crianças e adolescentes superdotados escondem a habilidade para serem aceitos. Em adultos, um estudo espanhol de 2026 encontrou camuflagem parecida com a autista em quem tem altas habilidades e autismo, e menor em quem tem apenas alta capacidade intelectual. Faltam estudos maiores.
Qual a diferença entre esconder a habilidade e camuflar traços autísticos?
No primeiro caso, a pessoa evita parecer “inteligente demais” para não sofrer rejeição ou inveja. No segundo, ela mascara ou compensa traços autísticos nas interações. As motivações e as intervenções podem ser diferentes.
O que é dupla excepcionalidade (2e)?
É a coexistência de altas habilidades com outra condição, como autismo, TDAH ou dificuldade de aprendizagem. Em tese, cada condição pode esconder a outra na avaliação, o que torna recomendável usar múltiplos critérios.
Camuflar causa esgotamento?
Em pessoas autistas, a camuflagem costuma ser descrita como exaustiva e se associa a menor bem-estar e a burnout. Para altas habilidades sem autismo, quase não há dados sobre esse custo.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico.
Referências principais
- Burger-Veltmeijer, A. et al. Revisão sobre a co-ocorrência de superdotação intelectual e transtornos do espectro autista. ScienceDirect.
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- Maki, K. E., Dougé, M., Rubenstein, L. D., Ridgley, L. M., & DeShon, L. (2026). Seeing both sides: A systematic review of identification methods for twice-exceptional learners. Journal for the Education of the Gifted. Link.
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- Seeming to belong: Camouflaging and pragmatic self-perception in twice-exceptional adults across neurodivergent profiles (2026). Revista de Logopedia, Foniatría y Audiología. Link.
- Camuflagem em autismo e TDAH: Is camouflaging unique for autism? Autism Research. Link.
- Camuflagem e competência social em adultos não autistas. Autism in Adulthood. Link.
Com carinho,
Paula.