Depois do diagnóstico de autismo, mulheres costumam atravessar sete emoções pouco nomeadas (frustração, medo, luto, choque, raiva, alívio e orgulho), e nenhuma delas é sinal de que o processo está sendo feito errado.
- Por que o diagnóstico de autismo em mulheres costuma chegar décadas depois do esperado
- As sete emoções identificadas por um estudo recente sobre diagnóstico tardio em mulheres autistas
- Por que o luto desse processo raramente é reconhecido socialmente como uma perda legítima
- Como ler a raiva ligada a invalidações profissionais como informação, não como defeito
- O que a Terapia Focada na Compaixão propõe para acolher essas emoções sem patologizá-las
Receber um diagnóstico de autismo depois dos 30, 40 ou até 50 anos costuma ser tratado, no discurso público, como um ponto final. Para muitas mulheres, isso vem depois de anos se perguntando por que não conseguiam se encaixar em certas explicações.
Quando finalmente chega um nome, a narrativa geralmente para aí. Explica-se o que é autismo. Listam-se sinais. Convida-se quem se identifica a buscar uma avaliação.
O que raramente se discute é o que vem depois da confirmação, especificamente para mulheres autistas, cujo caminho até o diagnóstico costuma ser mais longo e mais silenciado do que o de homens autistas. É justamente nesse ponto, quando o laudo já está em mãos, que boa parte do trabalho emocional real começa, muitas vezes sem nenhum tipo de suporte estruturado para atravessá-lo.
1 Uma lacuna de suporte pouco reconhecida
Um estudo qualitativo publicado na revista científica Autism (SAGE), conduzido pelas pesquisadoras Annie Pollock e Zoë Krupka, entrevistou mulheres australianas diagnosticadas com autismo depois dos 30 anos. A partir dessas entrevistas em profundidade, as autoras identificaram sete temas emocionais centrais que emergem no processo de receber esse diagnóstico tardiamente na vida.
O ponto central da pesquisa não é o diagnóstico em si, mas o que ele desencadeia depois, especificamente na experiência de mulheres. Essas emoções raramente aparecem isoladas ou em sequência organizada. É comum sentir alívio e luto na mesma semana, às vezes no mesmo dia, o que por si só já explica parte da confusão de quem está vivendo esse momento sem saber que ele tem nome.
2 Por que o diagnóstico chega tão tarde em mulheres
Pesquisas mostram que mulheres autistas tendem a camuflar traços autísticos com mais frequência do que homens autistas. Isso significa adaptar comportamento, expressão facial e fala para parecer socialmente “adequadas”. Por décadas, essa camuflagem foi apontada como a principal razão do atraso diagnóstico em mulheres.
Estudos mais recentes complicam essa explicação. Uma investigação de 2025 com mulheres, homens e pessoas não binárias autistas encontrou que a camuflagem não explica sozinha o atraso na identificação. Estereótipos de gênero e instrumentos de avaliação clínica calibrados a partir do perfil masculino de autismo pesam tanto ou mais nesse atraso.
Em outras palavras: o problema não é apenas que mulheres autistas mascaram bem. É que o sistema de diagnóstico, historicamente, não foi desenhado para reconhecê-las.
Essa camuflagem sustentada ao longo de anos tem um custo. Revisões sobre o tema descrevem exaustão física e emocional, sensação de desconexão da própria identidade e associação com sofrimento psíquico significativo em mulheres autistas que camuflam de forma intensa e prolongada.
- Camuflagem
- Adaptar de forma consciente ou automática o comportamento, a fala ou a expressão facial para parecer neurotípica em situações sociais.
- Perda ambígua
- Um tipo de perda sem um evento único e claro para marcar o luto, como uma data ou um funeral.
- Luto desautorizado
- Quando a sociedade ao redor não reconhece que ali existe, de fato, uma perda legítima a ser chorada.
3 Frustração, medo e choque
Muitas mulheres do estudo de Pollock e Krupka levaram anos, em alguns casos décadas, tentando ser ouvidas por um sistema de saúde cujos critérios diagnósticos foram historicamente calibrados a partir de meninos.
A frustração que aparece aqui não é impaciência. É a resposta razoável de quem precisou provar repetidamente o próprio sofrimento diante de portas que não a reconheciam. Hoje sabemos, com apoio de outras pesquisas, que essa dificuldade tem raiz estrutural, não individual.
Junto a isso, aparece o medo de estar errada, de estar “inventando uma desculpa”, especialmente em mulheres que passaram a vida sendo chamadas de sensíveis demais ou dramáticas. Essa dúvida é, em boa parte, internalização de invalidações recebidas ao longo dos anos, não um sinal de que o diagnóstico seja frágil.
O choque também tem uma característica particular no diagnóstico tardio: mesmo quando a mulher já suspeitava, ouvir a confirmação em voz alta pode abalar. É possível sentir, ao mesmo tempo, “eu já sabia” e “isso muda tudo”.
4 O luto que não tem funeral
Entre as sete emoções, o luto é uma das que exige mais cuidado, porque não tem um ritual social reconhecido. Não há cartão de pêsames, licença do trabalho ou evento único para marcar essa perda.
Na literatura sobre luto, esse fenômeno tem nome: perda ambígua e luto desautorizado (veja os termos acima).
- Anos vividos se culpando por dificuldades que sempre tiveram uma explicação
- Versões de si mesma construídas sobre a crença de que “só precisava se esforçar mais”
- Relações e oportunidades perdidas por mascaramento ou exaustão que nunca foi compreendida
- A própria infância, e o tipo de apoio que poderia ter existido se o diagnóstico tivesse vindo antes
“Se você é uma mulher autista e sente que está de luto por uma versão de vida que não pôde ter, isso não significa estar presa no passado. É luto de verdade, só que por algo que a maioria das pessoas ao redor não vai reconhecer como perda.”
5 A raiva como informação, não como defeito
A raiva identificada no estudo aparece direcionada, com frequência, a profissionais de saúde que dispensaram sinais anteriores com frases como “você é mulher, não parece autista” ou “isso é só ansiedade”.
Culturalmente, mulheres recebem com frequência a mensagem de que a raiva é uma emoção pouco aceitável. Isso favorece que uma raiva legítima se transforme em vergonha, ou seja simplesmente engolida ao longo do tempo.
Vale considerar essa raiva de outro ângulo: como informação, não como um defeito de caráter. Sentir raiva de um profissional que dispensou um pedido de ajuda há dez anos não precisa se transformar em rancor, nem precisa desaparecer para que seja possível seguir adiante. Ela pode ser lida como um sinal de que um limite foi cruzado, e de que esse limite era legítimo.
6 Alívio e orgulho: o lado que também precisa de espaço
Ao lado das emoções mais difíceis de validar publicamente, o estudo também identificou alívio e orgulho de pertencimento em mulheres autistas diagnosticadas tardiamente.
Para muitas, o diagnóstico foi a primeira explicação que realmente fez sentido, depois de anos tentando se encaixar em rótulos que nunca cabiam completamente: ansiedade, timidez, perfeccionismo. Esse alívio de finalmente ter um nome certo costuma coexistir, sem contradição, com o luto descrito acima.
O orgulho de pertencimento, por sua vez, surge do encontro com uma comunidade, uma linguagem e uma história coletiva às quais pertencer, muitas vezes pela primeira vez na vida.
7 Acolher sem patologizar: o que a CFT ajuda a entender
Um modelo útil para pensar essa fase é o dos três sistemas de regulação emocional propostos por Paul Gilbert, criador da Terapia Focada na Compaixão (CFT).
Ativado por anos sendo mal interpretada ou tendo a própria percepção da realidade questionada. Frustração, medo e raiva moram em boa parte aqui, como respostas coerentes a um histórico real de invalidação.
O que quer aproveitar o tempo perdido, entender tudo de uma vez, se cobrar para já estar em paz com o diagnóstico. Pode virar uma nova fonte de autocobrança.
Precisa ser deliberadamente cultivado depois do diagnóstico. É onde moram a segurança, o sentir-se compreendida, e onde alívio e orgulho encontram espaço.
A proposta da CFT aqui não é acalmar a pessoa para tirá-la da frustração ou da raiva. É ajudar o sistema de acalmar a ficar disponível ao lado dessas emoções, sem que uma cancele a outra.
Autocompaixão, nesse contexto, não significa parar de sentir raiva ou luto. Significa conseguir sentir essas emoções sem se atacar por senti-las.
- Das emoções descritas aqui, qual você reconheceu primeiro em você?
- Existe alguma delas que você sente, mas nunca colocou em palavras para mais ninguém?
- Há alguma raiva antiga, com um profissional, com a família ou consigo mesma, que você nunca deixou existir de verdade?
- O que mudaria se você tratasse essas emoções como visitantes legítimas, em vez de provas de que algo está errado com você?
Nenhuma dessas emoções é sinal de que você está fazendo esse processo errado. Não existe uma forma certa de processar um diagnóstico que, para muitas mulheres autistas, deveria ter vindo anos antes.
- Pollock, A. & Krupka, Z. Late bloomers: Exploring the emotional landscape of Australian women’s experiences of a late Autism diagnosis. Autism (SAGE). doi.org/10.1177/13623613251386983
- Taking Off the Mask: Investigating Autism Diagnosis and Camouflaging in Adult Women. Autism in Adulthood (2025). doi.org/10.1089/aut.2024.0150
- Summerill, J. & Summers, S. J. (2025). The Consequences of Social Camouflaging in Autistic Adults: A Systematic Review. Research in Autism Spectrum Disorders, 121-122, artigo 202556. doi.org/10.1016/j.reia.2025.202556
Se você é uma mulher autista e se reconheceu em alguma dessas sete emoções, existe um caminho possível que não passa por se apressar a “superar”. Mande uma mensagem pelo WhatsApp. Não precisa atravessar isso sozinha.
Com carinho,
Paula.