- Por que não existe, e provavelmente nunca vai existir, um remédio para o autismo em si
- Os dois modelos que explicam a deficiência, e por que a maioria aprendeu só um deles
- Por que a autocrítica se desenvolve junto com a experiência de crescer autista
- O que a ACT e a CFT propõem como caminho alternativo
- Como separar dois tipos de sofrimento que costumam chegar misturados
Não existe remédio para o autismo porque o autismo não é uma doença. É uma forma diferente de o cérebro processar informação, sensações e interação social.
Atualmente, apenas duas medicações têm aprovação para uso no espectro autista, risperidona e aripiprazol, e nenhuma das duas trata o autismo em si: ambas tratam irritabilidade associada, um sintoma que pode acompanhar o quadro, não uma característica central dele.
É comum ouvir, em sessão, algo como: “eu queria que existisse um remédio que resolvesse isso”. A frase costuma vir acompanhada de cansaço ou de frustração real, e isso faz sentido: viver em um mundo que não foi desenhado para o seu tipo de funcionamento cognitivo é, de fato, cansativo.
Mas por trás dessa frase existem duas lógicas diferentes, misturadas. Vamos separá-las, uma por vez.
1 Dois modelos diferentes de entender a deficiência
Existem duas formas principais de explicar por que uma característica gera dificuldade, e elas levam a conclusões opostas.
Existe um jeito “correto” de o cérebro funcionar. Quem se desvia tem um defeito, localizado dentro da pessoa. A solução é corrigir a pessoa.
A dificuldade aparece no encontro entre a pessoa e um ambiente que não foi construído para o seu funcionamento. A solução é mudar o ambiente.
Modelo médico: ela tem um déficit de atenção a ser tratado.
Modelo social: esse ambiente gera sobrecarga sensorial para esse tipo de cérebro; em outro ambiente, ela se concentra normalmente.
O modelo social tem origem no ativismo pela deficiência dos anos 1970 e foi sistematizado pelo sociólogo Michael Oliver. Ele não nega a existência real de dificuldades, apenas explica de onde vem boa parte delas.
Jim Sinclair escreve “Don’t Mourn for Us”: não existe uma criança neurotípica escondida esperando para ser revelada.
Judy Singer, socióloga australiana e autista, cunha o termo “neurodiversidade”.
Francisco Ortega publica Deficiência, autismo e neurodiversidade (Fiocruz), levando essa discussão para o Brasil.
2 Por que a autocrítica se desenvolve junto
Quando uma criança recebe, repetidamente, sinais de que seu jeito de processar o mundo é inconveniente ou motivo de vergonha, ela aprende uma regra: “o meu jeito de ser é o problema”.
Isto quer dizer que a pessoa passa a vigiar, corrigir e esconder partes de si mesma antes que outra pessoa precise apontar o problema primeiro. O custo dessa estratégia é real e mensurável, não apenas uma impressão subjetiva.
“Quando eu desejo um remédio que resolve, estou pedindo alívio prático, ou estou pedindo para parar de ser quem eu sou?”
O sociólogo Devon Price, autista, escreveu Unmasking Autism sobre exatamente essa lógica. Na França, a psicóloga social Julie Dachez trabalha essa mesma interseção em A Diferença Invisível.
3 O que a psicoterapia recente propõe
Duas abordagens ajudam a entender o que substitui a fantasia de um remédio, dentro do que se chama abordagem neuroafirmativa.
O sofrimento aumenta quando se luta contra o que não pode ser removido. O trabalho é aceitar a neurologia e mudar o comportamento em relação a ela, guiado por valores.
O sistema de ameaça aprende a monitorar o próprio funcionamento como perigo. A saída é cultivar o sistema de afiliação e segurança, não eliminar a fonte percebida do perigo.
Juntas, essas duas linhas apontam para o mesmo lugar: a mudança não é eliminar a característica, é mudar a relação da pessoa com ela.
4 Como separar dois tipos de sofrimento
Sobrecarga sensorial, dificuldade em organizar tarefas, exaustão social. Pode se beneficiar de acomodações e, às vezes, de suporte farmacológico para sintomas associados. Buscar suporte aqui é válido.
Mascaramento, rejeição, exigência de normas que não fazem sentido para aquele funcionamento. Não tem solução farmacológica, porque a origem está na relação, não no sistema nervoso.
Misturar os dois é o que sustenta a fantasia de um remédio único. Separá-los libera duas ações válidas ao mesmo tempo: suporte sem culpa para o Tipo 1, e trabalho sobre a relação com o ambiente para o Tipo 2.
- Não existe remédio para o autismo porque ele não é uma doença a ser curada.
- O modelo social explica boa parte do sofrimento pelo descompasso pessoa-ambiente, sem negar dificuldades reais.
- A autocrítica nasce de anos de sinais de que o próprio funcionamento era um problema.
- ACT e CFT propõem aceitar a neurologia e mudar a relação com ela, não eliminá-la.
- Separar sofrimento inerente de sofrimento social define o que buscar em cada caso.
O que costuma precisar de trabalho não é a pessoa. É a relação entre ela, o ambiente em que vive, e a forma como aprendeu a julgar a si mesma por ser diferente.
Se você é autista e reconheceu essa busca por um “remédio que resolve” na sua história, existe um caminho possível que não passa por se corrigir. Mande uma mensagem pelo WhatsApp. Não precisa enfrentar isso sozinho.
Com carinho,
Paula.