Nos preocupamos tanto porque o cérebro evoluiu para antecipar perigos e entende a preocupação como proteção. Quando o alarme não desliga, a mente simula cenários negativos para tentar controlar a incerteza, e crenças como “se eu me preocupar, estarei preparada” mantêm o ciclo.
A preocupação em três linhas
- O que éUm pensamento verbal voltado ao futuro, o “e se…?”, que tenta antecipar perigos e controlar a incerteza.
- Por que se repeteO alarme do cérebro não desliga sem ameaça real, e crenças como “preciso me preocupar” mantêm o ciclo.
- O que fazerAgir quando há o que fazer, aceitar a incerteza quando não há e tratar a si mesma com cuidado.
São duas da manhã. Você está deitada, a casa em silêncio, e a mente reprisa uma frase dita na reunião, prevê como será a semana que vem e imagina o pior sobre alguém que você ama. A preocupação toca como uma trilha sonora de fundo, e uma pergunta aparece: por que eu me preocupo tanto?
A boa notícia é que existe uma explicação bem mais gentil do que “exagero” ou “fraqueza”. Neste texto, vamos ver o que a psicologia e a neurociência sabem sobre os mecanismos da preocupação, o que mantém o ciclo e como começar a sair dele.
Por que o cérebro trata a preocupação como proteção?
Porque a preocupação é uma função natural de um cérebro que evoluiu para antecipar perigos. Estruturas como o córtex pré-frontal, que planeja e imagina o futuro, trabalham junto com o sistema límbico, em especial a amígdala, ligada à detecção de ameaças, para avaliar riscos reais ou imaginados. Nossos ancestrais que previam o ataque de um predador ou planejavam rotas de fuga tinham mais chance de sobreviver. A preocupação funciona, nesse sentido, como um alarme antecipado.
O problema aparece quando o alarme não desliga mesmo sem uma ameaça concreta. O cérebro não distingue bem entre um predador e um e-mail sem resposta: se algo parece incerto, ele aciona a vigilância.
O que a psicologia evolucionista acrescenta?
A psicologia evolucionista fala em descompasso entre o ambiente em que esses mecanismos se formaram e o ambiente atual. Hoje nos preocupamos menos com predadores e fome e mais com mensagens, desempenho, aceitação social, fracasso e crises existenciais. Mas o sistema de alarme continua operando como se tudo fosse perigo imediato. Em outras palavras, o cérebro tenta controlar o que não pode ser controlado.
Como aprendemos a vigiar?
Na Terapia Focada na Compaixão (CFT), de Paul Gilbert, a preocupação é vista como atividade do sistema de ameaça, que busca segurança pela antecipação. Eu noto que essa vigilância também se aprende. Quem cresceu num ambiente imprevisível, ou perto de cuidadores muito ansiosos, pode ter aprendido que estar alerta é a forma de se manter a salvo. Uma criança que recebeu cuidado previsível tende a internalizar mais segurança. Isso não é destino, mas ajuda a explicar por que algumas pessoas se preocupam mais do que outras.
A preocupação é uma tentativa de controlar a incerteza
O psicólogo canadense Michel Dugas e colegas propuseram um modelo em que a intolerância à incerteza é central na ansiedade generalizada. Preocupar-se serve, nesse modelo, para se preparar para o pior, evitar surpresas negativas e sentir algum controle. Na prática: quanto menos a pessoa tolera não saber, mais se preocupa, e quanto mais se preocupa, mais ansiosa fica.
Preocupação é pensamento ou emoção?
Preocupação é sobretudo um pensamento verbal voltado ao futuro, o “e se…?” que ocupa a mente. O medo, ao contrário, é uma emoção imediata e sensorial diante de algo presente. Pesquisas de Thomas Borkovec e colegas descrevem a preocupação como uma atividade predominantemente verbal que inibe o processamento emocional do que se teme. É por isso que pensar muito sobre algo pode não diminuir o medo.
Quanto do que nos preocupa realmente acontece?
A pergunta “mas e se eu precisar me preocupar?” é legítima, e a pesquisa ajuda a respondê-la. Em um estudo com 29 universitários que atendiam critérios de transtorno de ansiedade generalizada, LaFreniere e Newman (2020) pediram que registrassem suas preocupações por 10 dias e acompanharam os desfechos por 30 dias: 91,4% das previsões não se concretizaram. Das poucas que se concretizaram, cerca de 3 em cada 10 terminaram melhores do que o esperado, 4 em cada 10 como o esperado e as demais pior. É uma amostra pequena, mas o padrão sugere que a preocupação costuma superestimar a chance de o pior acontecer.
Tente prever
Escolha a resposta que parece mais provável em cada cartão. Errar faz parte: o feedback aparece logo depois.
Isso sugere que a preocupação tende a superestimar a chance de o pior acontecer e a manter um estado constante de alerta. Não significa que nunca haja o que resolver: quando existe um problema concreto, planejar ajuda. A diferença está entre pensar para agir e pensar em círculos.
Por que é tão difícil parar de se preocupar?
Porque muita gente acredita que precisa se preocupar. Pesquisas de Thomas Borkovec e Lizabeth Roemer mostram que pessoas com ansiedade generalizada atribuem à preocupação funções como motivar, preparar para o pior e evitar resultados ruins, e Adrian Wells descreve essas ideias como crenças positivas sobre a preocupação: a de que ela prepara e protege. A preocupação parece produtiva, mas raramente ajuda, e cria uma falsa sensação de ação.
Teste suas crenças sobre a preocupação
Marque as crenças que você reconhece em você. Cada uma abre uma releitura mais realista.
Nenhuma crença marcada ainda.
Quais crenças alimentam a preocupação?
- “Se eu me preocupar, estarei mais preparada.”
- “Me preocupar é uma forma de mostrar que me importo com as pessoas.”
- “Se eu não me preocupar, algo ruim vai acontecer.”
- “Preocupar-me me ajuda a evitar surpresas.”
- “Eu não consigo controlar minha mente.”
As quatro primeiras são crenças positivas: a preocupação como ferramenta. A última é uma crença negativa, a de que os pensamentos são incontroláveis, e também alimenta o ciclo, porque aumenta o medo da própria preocupação.
O que a ciência diz sobre essas crenças?
Na abordagem metacognitiva, de Adrian Wells, essas crenças são avaliadas por instrumentos como o Questionário de Metacognições (MCQ-30). Os estudos associam preocupação excessiva a mais crenças positivas de que ela previne problemas e de que é preciso se preocupar para manter o controle. Questionar essas crenças não significa abandonar responsabilidades. Significa notar que o preparo pode vir de ações concretas, sem sofrer por antecipação.
Como funciona o ciclo da preocupação?
O ciclo costuma seguir uma sequência, que pode durar horas ou dias e atrapalhar decisões e momentos de prazer:
Onde interromper o ciclo
Toque em cada etapa para ver o que fazer ali.
- Surge um pensamento automático. “E se der errado?”
- O corpo reage como se o perigo fosse real. Tensão, coração acelerado, inquietação.
- O pensamento se repete e alimenta a ansiedade.
- A mente acredita que está se preparando, mas está se desgastando.
- A preocupação continua e o problema segue sem solução.
Preocupação e telas: por que o feed alimenta o “e se”?
A vida digital oferece material infinito para a preocupação: notícias em fluxo contínuo, notificações, mensagens sem resposta e comparações nas redes. Estudos sobre o hábito de rolar notícias negativas (doomscrolling) o associam a mais estresse e ansiedade e a pior bem-estar, mas são em geral estudos de correlação, e por isso não é possível afirmar o que causa o quê. Um limite de exposição, com horários e fontes definidos, é uma forma prática de cuidar do sistema de ameaça.
Como sair do ciclo da preocupação?
Não se trata de eliminar a preocupação, e sim de mudar a relação com ela. Algumas estratégias:
- Questione a utilidade do pensamento. Ele está me ajudando a agir ou só me deixando ansiosa?
- Aja quando for possível. Se há algo a fazer, faça um passo pequeno e concreto em vez de só pensar.
- Aceite a incerteza. Não precisamos controlar tudo para nos sentir bem.
- Deixe pensamentos intrusivos passarem. Nem todo pensamento precisa ser seguido.
- Cultive a autocompaixão. Cuide de si sem se punir pela própria preocupação.
Posso agir sobre isso?
1. Existe algo concreto que eu possa fazer?
2. Quer reservar um horário de preocupação?
Material psicoeducativo, não substitui acompanhamento psicológico. Se houver sofrimento intenso ou pensamentos de se machucar, procure um profissional ou ligue para o CVV (188, no Brasil) ou para o 024 (Espanha).
Há uma nuance entre as abordagens. A TCC e a terapia metacognitiva trabalham principalmente com as crenças e a forma de pensar sobre a preocupação. A CFT acrescenta a pergunta sobre qual sistema emocional está ativo e propõe acalmar o corpo e adotar um tom interno cuidadoso, para que o sistema de ameaça possa baixar a guarda. As duas leituras se complementam.
Prática de 2 minutos: perceba onde a preocupação aparece no corpo; faça três respirações com a expiração mais longa que a inspiração; depois diga a si mesma, com a voz mais gentil que conseguir: “Estou com medo de que algo dê errado, e isso é humano. O que posso fazer agora, se algo puder ser feito?”
Quando procurar ajuda. Se a preocupação é diária, difícil de controlar, dura meses e vem com tensão muscular, cansaço ou sono ruim, vale conversar com um profissional de saúde mental. Isso não é um diagnóstico, é um sinal de que você merece apoio.
Para aprofundar cada parte do tema, veja Como a preocupação e a incerteza mantêm sua ansiedade, Ansiedade antecipatória e Não consigo parar de pensar: por que a mente entra em loop.
Perguntas frequentes sobre preocupação
Preocupar-se muito é sinal de ansiedade? Pode ser. Preocupação é um dos componentes centrais da ansiedade, mas preocupar-se de vez em quando é normal. O que pesa é a frequência, a dificuldade de controlar e o prejuízo no dia a dia.
Preocupação e ruminação são a mesma coisa? São parecidas, mas não iguais. A preocupação olha para o futuro (“e se der errado?”) e a ruminação costuma olhar para o passado (“por que eu fiz aquilo?”). As duas são formas de pensamento repetitivo.
Se eu parar de me preocupar, vou ficar descuidada? Não necessariamente. Cuidar e agir não dependem de sofrer antes. Muitas vezes, quem se preocupa menos decide melhor, porque pensa com o sistema de calma mais ativo.
Qual é a diferença entre se preocupar e planejar? Planejar leva a uma ação com prazo e termina quando a ação está definida. Preocupar-se repete o mesmo cenário sem chegar a uma decisão.
Em resumo
Preocupar-se é humano. O cérebro faz isso para nos proteger, mas, quando o alarme não desliga, a preocupação vira um ciclo que consome energia e nos afasta do presente. Entender os mecanismos, as crenças e o corpo envolvidos nesse ciclo devolve algo valioso: a liberdade de perceber a preocupação como um processo mental, e não como uma verdade absoluta.
Referências
- Borkovec, T. D., & Roemer, L. (1995). Perceived functions of worry among generalized anxiety disorder subjects. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, 26(1), 25-30. doi:10.1016/0005-7916(94)00064-S
- Borkovec, T. D., Ray, W. J., & Stöber, J. (1998). Worry: a cognitive phenomenon intimately linked to affective, physiological, and interpersonal behavioral processes. Cognitive Therapy and Research, 22(6), 561-576. doi:10.1023/A:1018790003416
- Dugas, M. J., Gagnon, F., Ladouceur, R., & Freeston, M. H. (1998). Generalized anxiety disorder: a preliminary test of a conceptual model. Behaviour Research and Therapy, 36, 215-226.
- LaFreniere, L. S., & Newman, M. G. (2020). Exposing worry’s deceit: percentage of untrue worries in generalized anxiety disorder treatment. Behavior Therapy, 51(3), 413-423. doi:10.1016/j.beth.2019.07.003
- Soraci, P., Griffiths, M. D., et al. (2025). Doomscrolling e saúde mental em adultos italianos (estudo transversal). Current Psychology, 44, 11872-11883. doi:10.1007/s12144-025-07976-9
- Wells, A. (1995). Meta-cognition and worry: a cognitive model of generalized anxiety disorder. Behavioural and Cognitive Psychotherapy, 23(3), 301-320. doi:10.1017/S1352465800015897
- Wells, A., & Cartwright-Hatton, S. (2004). A short form of the Metacognitions Questionnaire: properties of the MCQ-30. Behaviour Research and Therapy, 42(4), 385-396. doi:10.1016/S0005-7967(03)00147-5
E se a preocupação for, afinal, um convite a cuidar, e não a sofrer?
Receber a newsletter Psicoterapia e AfinsCom carinho,
Paula.
Gostei muito do que foi apresentado. Pode abrir mais a minha mente e me deixar mais tranquilo.